A política internacional sempre foi tema de grande interesse lá por casa. Ontem, a situação económica da Grécia deu origem a uma conversa com o comentador político de palmo e meio.
- O que achas da situação na Grécia? - perguntei eu, convencida de que me iria ignorar.
- Acho que o país se vai afundar completamente. E depois vai aparecer outro, a Grécia 2. Também se podia chamar Aicérg.
- Ai e quê?
- Aicérg. É Grécia ao contrário.
Terminada a conversa, o tema mudou readicalmente para dentaturas postiças.
terça-feira, 12 de maio de 2015
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Uma dentada sem querer
Há coisas que deixam uma mãe orgulhosa e uma delas era o facto de, em quase três anos de vida escolar, ele nunca ter levado para casa um recado na caderneta por mau comportamento. A "estreia", como definiu o próprio aconteceu agora, à beira do fim do ano letivo. Estávamos tão perto de mais um ano perfeito...
A missiva informava que o G. e o P. tinham andado "à luta". Referia que o G. tinha sido "empurrado primeiro", informação, mais uma vez segundo ele, muito relevante, que tinha havido "troca de chapadas" e que o G. tinha ferrado uma dentada no P. E tudo porque, segundo a professora, para quem o tema da briga é digno de relevo, "o P. tinha dito que era melhor guarda-redes que o G." (de salientar que são os dois uma nódoa).
- Tu mordeste no teu colega? - exclamei eu, horrorizada.
- Foi sem querer.
- Como é que se morde em alguém sem querer? - a pergunta era apenas retórica.
- A minha boca estava aberta e o braço dele foi lá parar.
A missiva informava que o G. e o P. tinham andado "à luta". Referia que o G. tinha sido "empurrado primeiro", informação, mais uma vez segundo ele, muito relevante, que tinha havido "troca de chapadas" e que o G. tinha ferrado uma dentada no P. E tudo porque, segundo a professora, para quem o tema da briga é digno de relevo, "o P. tinha dito que era melhor guarda-redes que o G." (de salientar que são os dois uma nódoa).
- Tu mordeste no teu colega? - exclamei eu, horrorizada.
- Foi sem querer.
- Como é que se morde em alguém sem querer? - a pergunta era apenas retórica.
- A minha boca estava aberta e o braço dele foi lá parar.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Uma coisa não tem nada a ver com a outra mas...
Há coisas que ele diz com uma convicção invejável. Esta foi uma delas:
"Apesar de ser virgem [de signo, leia-se], não acredito em milagres."
"Apesar de ser virgem [de signo, leia-se], não acredito em milagres."
segunda-feira, 9 de março de 2015
Em português correto
- Vou urinar.
- Vais quê? - perguntei eu, que não tinha entendido as palavras dele.
- Urinar. Já volto.
- Vais fazer chichi. - insisti eu.
- Eu prefiro urinar. É mais correto.
- Vais quê? - perguntei eu, que não tinha entendido as palavras dele.
- Urinar. Já volto.
- Vais fazer chichi. - insisti eu.
- Eu prefiro urinar. É mais correto.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Namoradas? Que nojo!
O tema namoro é recorrente lá em casa. A maior parte das vezes é o melhor caminho para o arreliar. É que o amor não tem andado no ar, agora que estamos na fase "as meninas são nojentas". Mas ultimamente, tem sido ele a abordar o assunto, ainda que como apenas espectador de uma cena amorosa que se desenrola em vários actos.
- O P. está a tentar arranjar uma namorada nova.
- Ai sim? - o P. é um dos amigos, de igual idade, leia-se, 7 anos.
- Mas não está a ter sorte nenhuma. Ontem foi ter com a D. e perguntou-lhe se ela queria ser namorada dele. Ela disse que não, mas ele não desistiu. Tentou várias vezes até que ela o ameaçou de pancada. Eu fiquei a ver aquela cena triste.
- Não gostavas de ter uma namorada? - perguntei eu.
O silêncio, acompanhado por um olhar de raiva, foi a resposta.
- Hoje, tentou o mesmo com a F. Mas ela mandou-lhe o gorro para o chão e chamou-lhe nomes. O P. está com azar.
- E tu?
- Eu fiquei a ver. Coitado.
- Mas tu não querias uma namorada?
- Eu não! Não gosto dessas coisas. Depois tinha que dar beijos, que nojo!
- Beijos?
- Sim, o P. beijava a M. na boca a toda a hora. - A M. era a namorada do P.
- Mas porque é que o P. quer outra namorada, se já tem uma?
- A M. já não quer dar mais beijos. E depois há a coisa das mãos?
- Das mãos? - perguntei eu, já com algum receio da resposta.
- Sim, ele quer mexer-lhe, pôr-lhe as mãos, mas ela não quer.
A conversa ficou por aqui. Não fiquei completamente esclarecida em relação à questão das mãos, mas acho que prefiro ficar na ignorância.
- O P. está a tentar arranjar uma namorada nova.
- Ai sim? - o P. é um dos amigos, de igual idade, leia-se, 7 anos.
- Mas não está a ter sorte nenhuma. Ontem foi ter com a D. e perguntou-lhe se ela queria ser namorada dele. Ela disse que não, mas ele não desistiu. Tentou várias vezes até que ela o ameaçou de pancada. Eu fiquei a ver aquela cena triste.
- Não gostavas de ter uma namorada? - perguntei eu.
O silêncio, acompanhado por um olhar de raiva, foi a resposta.
- Hoje, tentou o mesmo com a F. Mas ela mandou-lhe o gorro para o chão e chamou-lhe nomes. O P. está com azar.
- E tu?
- Eu fiquei a ver. Coitado.
- Mas tu não querias uma namorada?
- Eu não! Não gosto dessas coisas. Depois tinha que dar beijos, que nojo!
- Beijos?
- Sim, o P. beijava a M. na boca a toda a hora. - A M. era a namorada do P.
- Mas porque é que o P. quer outra namorada, se já tem uma?
- A M. já não quer dar mais beijos. E depois há a coisa das mãos?
- Das mãos? - perguntei eu, já com algum receio da resposta.
- Sim, ele quer mexer-lhe, pôr-lhe as mãos, mas ela não quer.
A conversa ficou por aqui. Não fiquei completamente esclarecida em relação à questão das mãos, mas acho que prefiro ficar na ignorância.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Uma ida diferente ao supermercado
- Hoje vamos às compras? - perguntou-me ele, com a carteira na mão.
- Vamos ao supermercado. - respondi eu, já a adivinhar o que ali vinha.
- Então vou levar a minha carteira para comprar umas coisas.
A caminho do supermercado, enquanto inspeccionava as moedas que lhe enchiam a carteira (moedas de dez, vinte e 50 cêntimos que, todas juntas, totalizavam qualquer coisa como quatro euros), alertou:
- É melhor cada um de nós levar o seu carrinho de compras.
- Porquê? - perguntei eu.
- Porque eu não quero ter que pagar as tuas coisas.
Tive vontade de lhe dizer que não corríamos esse risco, mas calei-me.
No supermercado, desapareceu com o pai. Acercou-se de mim mais tarde, já com as coisas na mão: uma carteira de cromos, uns dentes postiços (o Carnaval está a chegar) e uma caixa de lápis de cor.
- É só isso? - perguntei-lhe.
- Sim. Vamos pagar.
Na caixa, foi ele que passou os seus artigos, que escolheu as moedas (2,57€) e que pagou. Depois, pegou no saco e no talão e passou uns bons minutos a olhar para a conta.
- Está tudo certo. - Disse, sem esconder o contentamento. - E ainda me sobrou dinheiro. Para a semana voltamos.
- Vamos ao supermercado. - respondi eu, já a adivinhar o que ali vinha.
- Então vou levar a minha carteira para comprar umas coisas.
A caminho do supermercado, enquanto inspeccionava as moedas que lhe enchiam a carteira (moedas de dez, vinte e 50 cêntimos que, todas juntas, totalizavam qualquer coisa como quatro euros), alertou:
- É melhor cada um de nós levar o seu carrinho de compras.
- Porquê? - perguntei eu.
- Porque eu não quero ter que pagar as tuas coisas.
Tive vontade de lhe dizer que não corríamos esse risco, mas calei-me.
No supermercado, desapareceu com o pai. Acercou-se de mim mais tarde, já com as coisas na mão: uma carteira de cromos, uns dentes postiços (o Carnaval está a chegar) e uma caixa de lápis de cor.
- É só isso? - perguntei-lhe.
- Sim. Vamos pagar.
Na caixa, foi ele que passou os seus artigos, que escolheu as moedas (2,57€) e que pagou. Depois, pegou no saco e no talão e passou uns bons minutos a olhar para a conta.
- Está tudo certo. - Disse, sem esconder o contentamento. - E ainda me sobrou dinheiro. Para a semana voltamos.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Salazar no dia de Natal
No dia de Natal, a caminho de casa e imbuída do espírito da época, alicerçado nas muitas músicas natalícias que saíam do rádio do carro, decidi começar a cantar. É certo que não sou conhecida pelos meus dotes vocais, mas do banco de trás vieram comentários pouco simpáticos à minha performance. Eu continuei e ele também.
- Qual é o teu problema? - perguntei-lhe eu.
- Pára, estás a dar-me dor de cabeça.
- Eu sou livre para fazer o que quiser e agora quero cantar. Por isso... - disse-lhe eu, pensando que os seus sete anos não lhe conseguiram alimentar uma resposta.
- Salazar, volta Salazar.
- Como? - perguntei eu.
- Sim, no tempo do Salazar não tinhas liberdade. Por isso não podias cantar.
Calei-me.
- Qual é o teu problema? - perguntei-lhe eu.
- Pára, estás a dar-me dor de cabeça.
- Eu sou livre para fazer o que quiser e agora quero cantar. Por isso... - disse-lhe eu, pensando que os seus sete anos não lhe conseguiram alimentar uma resposta.
- Salazar, volta Salazar.
- Como? - perguntei eu.
- Sim, no tempo do Salazar não tinhas liberdade. Por isso não podias cantar.
Calei-me.
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