segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Desejos (peludos) para um ano novo


- Gostava de ter um bigode.
Olhei para ele. O ar sério não deixava margem para enganos: a coisa era a valer.
- Gostava mesmo de ter um bigode!
- E vais ter. - disse eu.
- Quando?
- Quando cresceres.
- Mas eu queria ter já.
E foi-se embora. Mas a conversa não tinha acabado. Lá de longe retorquiu:
- Ah!!!! Já tenho! Olha.
E voltou para ao pé de mim, com a mão no buço.
- Sente! Estive a ver ao espelho e já tenho. Até pica! Agora só falta a barba. E quero uma daquelas bem compridas.

E pronto. O desejo para este ano é: ter um bigode. E uma barba. E nem os meus argumentos de que barba e bigode compridos vão ficar cheios de sopa o convenceram. A forma de resolver o problema era simples:
- Quando for grande só vou comer peixe e carne. Sopa nunca mais!




quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Tiro ao lado


O tema da matéria era Estudo do Meio. Mais precisamente os sistemas que existem no nosso organismo. Confesso que já não me lembrava da maior parte das coisas e, não querendo parecer velha mas soando como uma, no meu tempo não dávamos esta matéria tão cedo. Não me recordo de, aos oito anos, já saber qual era o órgão reprodutor masculino ou o que era a fecundação. Mas adiante.

Estudámos os temas. E ele mostrou-se à altura do desafio. Do sistema circulatório ao respiratório, sem esquecer o urinário, do ureter à traqueia, passando pelos rins, o estômago ou o coração. Ficou tudo na ponta da língua e prontinho para o teste do dia seguinte.

No final desse dia, à saída da escola:
- Como correu o teste? - perguntei eu.
- Muito bem! - a resposta dele deixou-me com um enorme sorriso nos lábios.Tinha valido a pena tanta dedicação! Senti-me inchar de orgulho.
- Respondeste a tudo?
- Sim. Acho que vou ter boa nota.
- E houve perguntas sobre todos os sistemas?
Aqui começou o silêncio (e foi também aqui que eu comecei a perder o ar que me tinha deixado inchada).
- Então? - insisti eu - Saiu o sistema respiratório? E o digestivo?
O silêncio continuou. Comecei a estranhar.
- Mas afinal correu bem ou não?
- Sim... Mas o teste não foi de Estudo do Meio... Foi de Matemática.

Já não ouvia as justificações que se seguiram. Disse qualquer coisa sobre uma confusão feita pela professora, mas sei bem de quem foi a confusão. Depois, decidi olhar para a coisa pela positiva. Ou seja, havia mais tempo para voltar à traqueia, vasos sanguíneos ou bexiga. Quem não gostou muito foi ele. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Alma de rapper

O rapaz decidiu que agora é rapper. Mas acima de tudo eu acho que ele é um poeta. E a prová-lo está a letra de uma música que escreveu, num repente de inspiração:

"Desde que cheguei a casa já ninguém me liga. É tudo tão óbvio porque eu não ligo a ninguém.
Saí de casa para fumar um charuto, passaram cães com o Sodré e não me cumprimentaram. Fiquei mesmo triste.
O meu pai já não me liga por tudo o que eu faço. Não dá para comprar um carro, não há dinheiro.
Fui para a cama mas no dia seguinte toda a gente me ligava. Foi uma festa."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A frase do ano

«Quando for grande vou ser culturista. E ter uns músculos muito grandes.»

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Dúvidas existenciais

Deitado na cama, o pai ali sentado ao lado, começou com as suas dúvidas existenciais:

- Pai, quando morremos, depois voltamos a nascer?
O pai não respondeu.
- Quer dizer, depois nasce alguém?
O silêncio do pai continuou.
- Pai, estás a dormir? Sabes, eu andava muito preocupado com a morte, mas agora já não ando. O que me interessa é viver a vida!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Extinção da humanidade

Os lamentos eram muitos. À porta da loja exprimia-se, alto e bom som, sem deixar margens para dúvidas sobre o que queria. Ou melhor o que não queria: perder tempo nas compras. Mas o consumismo materno falou mais alto.

- Vamos lá - disse eu. - Damos aqui uma volta e depois vamos embora.
- O quê? Já viste o tamanho da loja? - respondeu ele. - Quando sairmos daqui já o homem vai estar extinto!

sábado, 24 de outubro de 2015

Rugas aos oito anos

- Estou cheio de rugas! - grita ele a partir da casa de banho.
- Não tens rugas nenhumas - digo eu.
- Olha, olha para mim. - e começa a gemer - Como é que eu posso ter tantas rugas? Oh, estou a ficar velho!
- Não tens rugas nenhumas - repito eu.
- Nunca mais faço cara mau! - e vira-me costas, cabeça baixa, com um valente suspiro.