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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Filósofo de palmo e meio

Frase do dia (acredito mesmo que do mês, quiçá do ano!):

"Mãe, por favor, eu quero nascer outra vez."
G., 4 anos

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Que pena... para ti

Foi duro. Quatro semanas depois da despedida, eis-me de regresso à mesma secretária empoeirada, junto ao mesmo computador que não conhece o significado da palavra rapidez, a lutar com a mesma impressora que insiste em engolir o papel... E é duro quando, na hora de sair de casa, o G., ainda com três anos, mas já a abraçar a autoridade dos quatro, me pergunta:
- "Onde vais?"
- "Trabalhar", respondo, crente de que a pergunta é reveladora de umas saudades incontroláveis.
- "Dois dias seguidos?", volta ele.
- "Sim", digo. "Sabes, eu trabalho todos os dias."
- "Mas não trabalhaste durante muito tempo", continua ele, sem vontade de se dar por vencido.
- "Pois... a isso chamam-se férias. E já acabaram."
O olhar pensativo dá lugar a um encolher de ombros. E depois, a resposta, que põe um ponto final na conversa.
"Que pena... para ti!"




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Para maiores de... 4


Já não me lembrava da última vez que tinha ido ao cinema. Não me recordava qual o filme, a hora do dia ou até o cheiro das pipocas que acaba sempre por invadir as salas. Com certeza tinha sido há muito, num passado ainda a dois.
E de repente, tudo mudou.
Os quase quatro anos de idade trouxeram com eles um apetite cinéfilo difícil de contentar. Resultado: a minha bagagem cinematográfica está mais rica, ou pelo menos mais colorida. Depois do Winnie e do seu apetite insaciável por mel, do Po e dos seus golpes - de barriga e não só -, dos truques de karaté que partilha com o Grou, a Tigreza, o Mestre Macaco, o Louva ou a Víbora, vieram os carros, a velocidade, o barulho dos motores a acelerar e, confesso, uma ou outra ocasional passagem pelas brasas, que isto de ir ver filmes depois do almoço tem destas coisas.
E com isto chego à conclusão, algo desoladora, que, em apenas um mês, já fui mais vezes ao cinema do que em vários anos da minha vida. E sempre para ver filmes para maiores de 4... ou 6! 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Varandofobia

Tenho uma nova fobia. Ao medo de aranhas, aranhiços e amigos de muitas patas junta-se agora o receio das varandas. Não sei se a ciência tem algum nome para o fenómeno, mas se não, aqui fica uma sugestão: varandofobia. Pouco original, eu sei, mas a experiência recente retirou-me toda e qualquer capacidade imaginativa quando o tema é... varandas, esses monstros que dão acesso ao exterior e que são verdadeiramente capazes de nos tirar do sério.

Muito exagerada? Posso parecer, mas o que me aconteceu há dois dias deixou marcas tão profundas que talvez só muitos anos de terapia vão conseguir minorar. Ora estava eu transformada em fada do lar - o que, é um facto, só acontece em raras ocasiões - quando decidi estender a roupa, um acto simples que, pensava eu, envolve pouco risco. Pois não podia estar mais enganada. Deixei o puto às voltas com uma revista na sala e dirigi-me para a varanda de um dos quartos. Abri a porta, que é de correr, e quando a quis encostar aconteceu o imprevisto: fechou-se no trinco, sem me ter dado qualquer hipótese de a abrir. Resultado: fiquei presa do lado de fora, com um miúdo de três anos sozinho do lado de dentro.

Aqui, começou o pânico.
E agora? - pensei eu, ainda mais ou menos calma. Comecei a bater intensa e violentamente no vidro, decidida a chamar a sua atenção. Mais ou menos dez minutos depois lá apareceu o rapaz, com um olhar intrigado. Expliquei, calmamente, que a mãe estava presa na varanda e que precisava que ele me abrisse a porta. Até aqui, tudo bem e a esperança de entrar em casa reavivava-se. O moço bem tentou, mas aquele coisa é a prova de crianças e nada de mexer. Passámos então ao plano B: ligar para o pai da criança e pedir para ele se despachar a chegar a casa e me salvar.

O rapaz lá foi buscar o telemóvel, mas a porcaria da coisa estava bloqueada. Ainda mais ou menos calma, pedi-lhe para ir buscar o telefone fixo, que a bem da verdade é móvel, que se encontrava numa das prateleiras mais alta do móvel da sala (exactamente para ele não conseguir lá chegar). Mais dez minutos de espera e regressa sua excelência, de mãos vazias: "Não consigo lá chegar", disse ele.
Porra, pensei eu. E virou-me costas, regressando à sala, indiferente aos meus apelos para que ficasse ali, a fazer-me companhia.

Meia hora de gritos, pontapés, murros no vidro, pedidos de socorro, lágrimas e muitos pensamentos negativos depois (o que é que ele está a fazer sozinho, será que está a pôr os dedos nas fichas, ou foi à cozinha buscar facas, será que subiu para cima da mesa e caiu), lá volta o moço, bastante irritado: "O que é que foi agora?", disse, do alto dos seus três anos. "Estás a fazer muito barulho. Não consigo ler a revista."
Nessa altura, quase uma hora depois de me ter trancado na varanda, confesso que a racionalidade já se tinha ido... a ideia de me mandar dali para baixo estava a ganhar cada vez mais consistência e nem o facto de ser um primeiro andar, mas equivalente a um terceiro, me fazia considerar. Pedi-lhe, ou melhor, implorei-lhe que fosse buscar o telemóvel (outra vez!), que eu precisava que ele me salvasse. Mas o rapaz tinha outras preocupações e voltou para a sala, sem me dar qualquer atenção.

Nova ronda de gritos, pontapés e afins e dá-se o regresso do jovem, ainda mais irritado. Tentei fazer-lhe ver que estava presa, que não era uma brincadeira e lá o convenci a ir novamente buscar o telefone. Estávamos quase a conseguir desbloquear a coisa quando ele diz: "Está a chegar alguém!"
O alívio apoderou-se de mim... Mas ainda tive que esperar mais um pouco... É que em vez de ter pedido ao pai parta me ir libertar, ele ainda teve tempo para lhe propor um jogo: "Vê lá se adivinhas onde está a mãe?"

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Adeus, monotonia

Para quem acha que tem uma vida monótona e que chega ao fim do dia sem nada de novo para contar, o remédio é simples (pode não ser barato, sobretudo nos dias que correm, mas é simples): ter um filho. Desde que o meu nasceu que a minha vida passou a dar um autêntico filme. Nunca mais tive escassez de conversa, nunca como antes tive tantas novidades ou histórias curiosas. É verdade que também nunca como antes dormi tão pouco ou tive tão pouca paz de espírito, mas isso parece-me mesmo um preço baixo a pagar por tamanha animação. Um dia, é o apelo do naturismo que fala mais alto, traduzido na exigência de ficar nu, que não se compadece com os 14 ou 15 graus de temperatura que o esperam lá fora; noutro dia é o despertar às seis da manhã, hora ideal, concordam todos, para saltar da cama e ir para a cozinha, decidido a fazer papa, colmatando o apelo da barriga vazia. Podem também ser os ataques violentos, quando encarna a personagem de Batman (ou batemén, na versão corrigida), justificados com a veracidade que é importante dar à personagem. Quando não manda calar a mãe, pode mandá-la para a cozinha, que é o local certo para qualquer progenitora... Enfim, uma montanha-russa de emoções, que nos podem bem deixar com os bofes de fora, mas torna a nossa vida muito colorida... e feliz!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Perfeição materna

Ser uma mãe perfeita é o desejo, acho eu, de todas as progenitoras, pelo menos as dignas do nome. E para os miúdos norte-americanos, segundo o The Baby Website, que entrevistou três mil com idades entre os seis e os 15 anos, os ingredientes para o conseguir são simples:
1.º - ser uma fada do lar, daquelas que lavam e passam a ferro, que cozinham todas as refeições em menos de meia hora (não esquecendo os bolinhos) e deixam a casa num brinquinho;
2.º - deixar os putos ver toda a televisão que quiserem, à hora que suas excelências de palmo e meio o solicitarem;
3.º - estar disponível para as brincadeiras quando os pirralhos o desejarem, é claro, isto dentro e fora de casa;
4.º - não poupar os elogios.
Resumindo e concluindo: ser uma escrava da casa, não ter outros interesses para além dos filhos, não impor regras, não castigar... Ou seja, tudo aquilo que eu não sou e, mais do que garantido, nunca virei a ser. Desculpa, filho, mas no meio disto tudo, a única coisa que levas é brincadeiras que, concordo, nunca são demais e mimos, muitos mimos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dormir como quem?

Sempre gostava de saber quem é que foi a alma iluminada que decidiu que 'dormir como um bebé' é o mesmo que ter uma boa noite de sono. Aposto que era alguém que não tinha filhos. Para si, inteligência suprema, fica o esclarecimento: a única coisa que 'dormir como um bebé' significa é acordar, na melhor das hipóteses, três ou quatro vezes por noite e levantar, num dia daqueles mesmo bons, lá pelas oito da matina.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Penitência...


Chama-se Paulo, mas é mais conhecido lá em casa como o Totó. É carteiro de profissão e a sua farda azul, que se mistura com o vermelho da carrinha onde transporta o correio, invade-me a televisão a toda a hora. Logo pela manhãzinha, ainda mal os bons dias foram dados, já a vozinha exigente, do alto do seu palmo e meio, grita pelo Totó. Vale Verde, o Júlio, o Carlos Queirós ou a senhora dona Gomes são os personagens que se seguem e se repetem, vezes sem conta, episódio atrás de episódio, em histórias que prendem os seus olhinhos cor de avelã e os fazem brilhar. À tarde, quando a ditadura do trabalho permite um intervalo em casa, o Totó regressa à televisão; à noite, volta a aparecer, fruto da mesma exigência que o fez saltar para o leitor DVD horas antes. Confesso que até já gostei do Totó ou Carteiro Paulo. Agora, ao pensar o que o dia de amanhã me reserva - uma autêntica maratona de cartas, pacotes ou encomendas - confesso que o carteiro perdeu parte do seu encanto. É que depois de ter visto pelo menos 500 vezes os mesmos episódios, dou por mim a reparar em pormenores. Por exemplo, que o carteiro deve um pouco à higiene (nunca muda de roupa), que o carlos Queirós tem voz de mariquinhas, que o polícia Artur tem é jeito para a agricultura... Conclusão: cada vez aumenta mais o fascínio pelos Irmãos Koala.