A gritaria foi grande. Depois de um dia de correria e brincadeira, a recusa em tomar banho e subsequente escarcéu valeu-lhe um castigo: ficou sem direito aos aparelhos eletrónicos de que tanto gosta e depois do jantar, o destino foi o quarto (que não é lá grande castigo, é certo, já que se encontra cheio de brinquedos e distrações).
- A minha vida é muito má! - gritava ele, informado com a situação. - Nunca mais vou sair deste quarto.
- Eu não disse até quando é que ficavas de castigo. Sair só depende de ti - disse eu, numa tentativa de acalmar o drama.
- Não, eu não mereço sair. Vou ficar aqui para sempre.
- Para sempre? É isso que queres? - questionei eu.
- Sim. Para sempre! Ah, mas não te esqueças de quando eu tiver 70 anos me vires tirar desta cama. Nessa altura já não devo conseguir.
Não conheço outro com tanto jeito para dramatizar. Em tempos quis ser ator. Já não quer. Agora percebo que vai passar ao lado de uma grande carreira.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Versão matemática do sermão de S. António aos peixes
Como é que eu sei que ele precisa de conviver com outras crianças?
Quando ele tenta ensinar a tabuada aos peixinhos do aquário.
Quando ele tenta ensinar a tabuada aos peixinhos do aquário.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Grécia ou Aicérg
A política internacional sempre foi tema de grande interesse lá por casa. Ontem, a situação económica da Grécia deu origem a uma conversa com o comentador político de palmo e meio.
- O que achas da situação na Grécia? - perguntei eu, convencida de que me iria ignorar.
- Acho que o país se vai afundar completamente. E depois vai aparecer outro, a Grécia 2. Também se podia chamar Aicérg.
- Ai e quê?
- Aicérg. É Grécia ao contrário.
Terminada a conversa, o tema mudou readicalmente para dentaturas postiças.
- O que achas da situação na Grécia? - perguntei eu, convencida de que me iria ignorar.
- Acho que o país se vai afundar completamente. E depois vai aparecer outro, a Grécia 2. Também se podia chamar Aicérg.
- Ai e quê?
- Aicérg. É Grécia ao contrário.
Terminada a conversa, o tema mudou readicalmente para dentaturas postiças.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Uma dentada sem querer
Há coisas que deixam uma mãe orgulhosa e uma delas era o facto de, em quase três anos de vida escolar, ele nunca ter levado para casa um recado na caderneta por mau comportamento. A "estreia", como definiu o próprio aconteceu agora, à beira do fim do ano letivo. Estávamos tão perto de mais um ano perfeito...
A missiva informava que o G. e o P. tinham andado "à luta". Referia que o G. tinha sido "empurrado primeiro", informação, mais uma vez segundo ele, muito relevante, que tinha havido "troca de chapadas" e que o G. tinha ferrado uma dentada no P. E tudo porque, segundo a professora, para quem o tema da briga é digno de relevo, "o P. tinha dito que era melhor guarda-redes que o G." (de salientar que são os dois uma nódoa).
- Tu mordeste no teu colega? - exclamei eu, horrorizada.
- Foi sem querer.
- Como é que se morde em alguém sem querer? - a pergunta era apenas retórica.
- A minha boca estava aberta e o braço dele foi lá parar.
A missiva informava que o G. e o P. tinham andado "à luta". Referia que o G. tinha sido "empurrado primeiro", informação, mais uma vez segundo ele, muito relevante, que tinha havido "troca de chapadas" e que o G. tinha ferrado uma dentada no P. E tudo porque, segundo a professora, para quem o tema da briga é digno de relevo, "o P. tinha dito que era melhor guarda-redes que o G." (de salientar que são os dois uma nódoa).
- Tu mordeste no teu colega? - exclamei eu, horrorizada.
- Foi sem querer.
- Como é que se morde em alguém sem querer? - a pergunta era apenas retórica.
- A minha boca estava aberta e o braço dele foi lá parar.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Uma coisa não tem nada a ver com a outra mas...
Há coisas que ele diz com uma convicção invejável. Esta foi uma delas:
"Apesar de ser virgem [de signo, leia-se], não acredito em milagres."
"Apesar de ser virgem [de signo, leia-se], não acredito em milagres."
segunda-feira, 9 de março de 2015
Em português correto
- Vou urinar.
- Vais quê? - perguntei eu, que não tinha entendido as palavras dele.
- Urinar. Já volto.
- Vais fazer chichi. - insisti eu.
- Eu prefiro urinar. É mais correto.
- Vais quê? - perguntei eu, que não tinha entendido as palavras dele.
- Urinar. Já volto.
- Vais fazer chichi. - insisti eu.
- Eu prefiro urinar. É mais correto.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Namoradas? Que nojo!
O tema namoro é recorrente lá em casa. A maior parte das vezes é o melhor caminho para o arreliar. É que o amor não tem andado no ar, agora que estamos na fase "as meninas são nojentas". Mas ultimamente, tem sido ele a abordar o assunto, ainda que como apenas espectador de uma cena amorosa que se desenrola em vários actos.
- O P. está a tentar arranjar uma namorada nova.
- Ai sim? - o P. é um dos amigos, de igual idade, leia-se, 7 anos.
- Mas não está a ter sorte nenhuma. Ontem foi ter com a D. e perguntou-lhe se ela queria ser namorada dele. Ela disse que não, mas ele não desistiu. Tentou várias vezes até que ela o ameaçou de pancada. Eu fiquei a ver aquela cena triste.
- Não gostavas de ter uma namorada? - perguntei eu.
O silêncio, acompanhado por um olhar de raiva, foi a resposta.
- Hoje, tentou o mesmo com a F. Mas ela mandou-lhe o gorro para o chão e chamou-lhe nomes. O P. está com azar.
- E tu?
- Eu fiquei a ver. Coitado.
- Mas tu não querias uma namorada?
- Eu não! Não gosto dessas coisas. Depois tinha que dar beijos, que nojo!
- Beijos?
- Sim, o P. beijava a M. na boca a toda a hora. - A M. era a namorada do P.
- Mas porque é que o P. quer outra namorada, se já tem uma?
- A M. já não quer dar mais beijos. E depois há a coisa das mãos?
- Das mãos? - perguntei eu, já com algum receio da resposta.
- Sim, ele quer mexer-lhe, pôr-lhe as mãos, mas ela não quer.
A conversa ficou por aqui. Não fiquei completamente esclarecida em relação à questão das mãos, mas acho que prefiro ficar na ignorância.
- O P. está a tentar arranjar uma namorada nova.
- Ai sim? - o P. é um dos amigos, de igual idade, leia-se, 7 anos.
- Mas não está a ter sorte nenhuma. Ontem foi ter com a D. e perguntou-lhe se ela queria ser namorada dele. Ela disse que não, mas ele não desistiu. Tentou várias vezes até que ela o ameaçou de pancada. Eu fiquei a ver aquela cena triste.
- Não gostavas de ter uma namorada? - perguntei eu.
O silêncio, acompanhado por um olhar de raiva, foi a resposta.
- Hoje, tentou o mesmo com a F. Mas ela mandou-lhe o gorro para o chão e chamou-lhe nomes. O P. está com azar.
- E tu?
- Eu fiquei a ver. Coitado.
- Mas tu não querias uma namorada?
- Eu não! Não gosto dessas coisas. Depois tinha que dar beijos, que nojo!
- Beijos?
- Sim, o P. beijava a M. na boca a toda a hora. - A M. era a namorada do P.
- Mas porque é que o P. quer outra namorada, se já tem uma?
- A M. já não quer dar mais beijos. E depois há a coisa das mãos?
- Das mãos? - perguntei eu, já com algum receio da resposta.
- Sim, ele quer mexer-lhe, pôr-lhe as mãos, mas ela não quer.
A conversa ficou por aqui. Não fiquei completamente esclarecida em relação à questão das mãos, mas acho que prefiro ficar na ignorância.
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