Quando ele me disse que ia escrever um livro, pensei que este seria mais um projecto proporcional à vontade que costuma ter de fazer qualquer coisa que exija usar as mãos (ou seja, muito curto). Depois, explicou que ia contar a história de um menino, que era mago e ia estudar para uma escola de magia (qualquer coincidência com o Harry Potter, a sua mais recente obsessão, é pura realidade).
Não posso dizer que me tenha enganado. Mas a verdade é que, desta vez, me surpreendeu. O entusiasmo foi grande durante, sei lá, uma semana. Todos os dias se recolhia para escrever e é um facto que o rapaz escreveu algumas páginas do seu romance. Mas este, tal como muitos outros dos seus projectos, ficou inacabado.
Agora, voltou-se para a escrita cómica, com as histórias de um novo super-herói, o Homem Preto, que tem uma mão robótica e um desejo: livrar os mundo de três vilões. São eles, por esta ordem, Homem Aranha, Barack Obama e António Costa.
terça-feira, 8 de março de 2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Vamos baixar os impostos
Na escola, a professora pede uma fase afirmativa. E ele responde:
- Vamos baixar os impostos.
Quando lhe pergunto porquê os impostos, se não podia ter sido, em vez deles, um "vamos jogar à bola" ou "vamos comer um gelado", ele diz-me: podia, mas não era importante que baixassem os impostos?
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Desejos (peludos) para um ano novo
- Gostava de ter um bigode.
Olhei para ele. O ar sério não deixava margem para enganos: a coisa era a valer.
- Gostava mesmo de ter um bigode!
- E vais ter. - disse eu.
- Quando?
- Quando cresceres.
- Mas eu queria ter já.
E foi-se embora. Mas a conversa não tinha acabado. Lá de longe retorquiu:
- Ah!!!! Já tenho! Olha.
E voltou para ao pé de mim, com a mão no buço.
- Sente! Estive a ver ao espelho e já tenho. Até pica! Agora só falta a barba. E quero uma daquelas bem compridas.
E pronto. O desejo para este ano é: ter um bigode. E uma barba. E nem os meus argumentos de que barba e bigode compridos vão ficar cheios de sopa o convenceram. A forma de resolver o problema era simples:
- Quando for grande só vou comer peixe e carne. Sopa nunca mais!
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Tiro ao lado
O tema da matéria era Estudo do Meio. Mais precisamente os sistemas que existem no nosso organismo. Confesso que já não me lembrava da maior parte das coisas e, não querendo parecer velha mas soando como uma, no meu tempo não dávamos esta matéria tão cedo. Não me recordo de, aos oito anos, já saber qual era o órgão reprodutor masculino ou o que era a fecundação. Mas adiante.
Estudámos os temas. E ele mostrou-se à altura do desafio. Do sistema circulatório ao respiratório, sem esquecer o urinário, do ureter à traqueia, passando pelos rins, o estômago ou o coração. Ficou tudo na ponta da língua e prontinho para o teste do dia seguinte.
No final desse dia, à saída da escola:
- Como correu o teste? - perguntei eu.
- Muito bem! - a resposta dele deixou-me com um enorme sorriso nos lábios.Tinha valido a pena tanta dedicação! Senti-me inchar de orgulho.
- Respondeste a tudo?
- Sim. Acho que vou ter boa nota.
- E houve perguntas sobre todos os sistemas?
Aqui começou o silêncio (e foi também aqui que eu comecei a perder o ar que me tinha deixado inchada).
- Então? - insisti eu - Saiu o sistema respiratório? E o digestivo?
O silêncio continuou. Comecei a estranhar.
- Mas afinal correu bem ou não?
- Sim... Mas o teste não foi de Estudo do Meio... Foi de Matemática.
Já não ouvia as justificações que se seguiram. Disse qualquer coisa sobre uma confusão feita pela professora, mas sei bem de quem foi a confusão. Depois, decidi olhar para a coisa pela positiva. Ou seja, havia mais tempo para voltar à traqueia, vasos sanguíneos ou bexiga. Quem não gostou muito foi ele.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Alma de rapper
O rapaz decidiu que agora é rapper. Mas acima de tudo eu acho que ele é um poeta. E a prová-lo está a letra de uma música que escreveu, num repente de inspiração:
"Desde que cheguei a casa já ninguém me liga. É tudo tão óbvio porque eu não ligo a ninguém.
Saí de casa para fumar um charuto, passaram cães com o Sodré e não me cumprimentaram. Fiquei mesmo triste.
O meu pai já não me liga por tudo o que eu faço. Não dá para comprar um carro, não há dinheiro.
Fui para a cama mas no dia seguinte toda a gente me ligava. Foi uma festa."
"Desde que cheguei a casa já ninguém me liga. É tudo tão óbvio porque eu não ligo a ninguém.
Saí de casa para fumar um charuto, passaram cães com o Sodré e não me cumprimentaram. Fiquei mesmo triste.
O meu pai já não me liga por tudo o que eu faço. Não dá para comprar um carro, não há dinheiro.
Fui para a cama mas no dia seguinte toda a gente me ligava. Foi uma festa."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Dúvidas existenciais
Deitado na cama, o pai ali sentado ao lado, começou com as suas dúvidas existenciais:
- Pai, quando morremos, depois voltamos a nascer?
O pai não respondeu.
- Quer dizer, depois nasce alguém?
O silêncio do pai continuou.
- Pai, estás a dormir? Sabes, eu andava muito preocupado com a morte, mas agora já não ando. O que me interessa é viver a vida!
- Pai, quando morremos, depois voltamos a nascer?
O pai não respondeu.
- Quer dizer, depois nasce alguém?
O silêncio do pai continuou.
- Pai, estás a dormir? Sabes, eu andava muito preocupado com a morte, mas agora já não ando. O que me interessa é viver a vida!
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