segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pretérito muito presente

Há capítulos que damos como encerrados, situações enterradas no mais fundo da nossa memória e que, por vezes, chegamos mesmo a duvidar que aconteceram, de tão distantes que parecem. Mas por vezes esse passado reaparece... E nem é preciso muito. Basta uma cara com que nos cruzamos que, de tão familiar, nos leva a desenterrar o que gostaríamos que tivesse ficado soterrado no fundo da pilha das recordações. Às vezes gostava de conseguir esquecer completamente, de apagar, de limpar, de erradicar essas lembranças que me fazem estremecer, que me remetem para uma mistura de emoções. Às saudades, sobretudo da pessoa que era, dos bons momentos, das escolhas tantas vezes levianas, pouco racionais, que é como todas deviam ser, junta-se a raiva, o medo, o alívio de me ter conseguido libertar. Ninguém disse que os encontros com o passado tinham que ser bons. Mas porque raio é que o pretérito tem de voltar a ser presente?

domingo, 8 de novembro de 2009

In teardrops we trust

Sou uma chorona. Isto é o mesmo que dizer que choro por tudo e por nada: choro nos filmes mais lamechas; choro no cúmulo da maior irritação; choro forçada pelas saudades; choro até quando estou mesmo muito feliz... Enfim, chorar é mesmo comigo. E de acordo com um estudo israelita, ainda bem que sou uma chorona. Diz a investigação 'Trust in a teardrop', levada a cabo pela Universidade de Tel Aviv, que as lágrimas reforçam vínculos interpessoais, funcionam como um pedido de ajuda e podem - isto é importante em tempos de guerra - amansar os inimigos. E a reportagem onde li esta constatação fantástica, pelo menos para mim, dá ainda a conhecer outras coisas. Por exemplo, que na Grécia Antiga chorar era permitido aos homens, mas não às mulheres, a quem cabia serem fortes e equilibradas. Mais tarde, no século XVIII, a época de todos os romantismos, chorar era permitido em público, já que o drama era o prato do dia. Nos tempos da Revolução Industrial, em pleno século XIX, as lágrimas podia rolar da face de homens e mulheres desde que de classes baixas - na das elites nunca!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dormir como quem?

Sempre gostava de saber quem é que foi a alma iluminada que decidiu que 'dormir como um bebé' é o mesmo que ter uma boa noite de sono. Aposto que era alguém que não tinha filhos. Para si, inteligência suprema, fica o esclarecimento: a única coisa que 'dormir como um bebé' significa é acordar, na melhor das hipóteses, três ou quatro vezes por noite e levantar, num dia daqueles mesmo bons, lá pelas oito da matina.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Testes que nos testam

Parece-me mais ou menos consensual que não há ninguém que nos conheça melhor que nós mesmos. Sabemos os nossos segredos, ou não fôssemos nós a escondê-los de terceiros, os nossos medos, as vergonhas, os estados de espírito - estes mais difíceis de mascarar, principalmente que nos apetece fazer de alguém saco de pancada -, o que nos faz saltar de alegria, o que nos deprime, o que gostamos de comer, de ler, de ouvir... E ainda assim, dou por mim a perder tempo a fazer testes que não mais têm do que a pretensão de me dar a conhecer a minha personalidade. Este fenómeno, que dá pelo nome de quizzes do Facebook, é uma inesgotável fonte de sabedoria. Informa sobre tudo. Ele há os testes que, fruto de um conhecimento superior, vaticinam sobre o número de filhos que vamos ter; os que informam sobre a sorte que o dia nos reserva; passando pelos que nos dizem que estilo de música somos, que animal de estimação melhor nos descreve, o que diz o nosso dia, mês ou ano de aniversário. E por aí fora. O curioso disto tudo, para além da constatação do facto de que são muitas as vezes que não tenho mesmo nada para fazer, é que afinal não me conheço assim tão bem.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Contra o fim do Mundo

21 de Dezembro de 2012. A data ainda vem longe no calendário, mas pensado bem nem falta assim tanto - três anos, mais coisa menos coisa. É para isso que Patrick Geryl, um senhor de que, confesso, nunca tinha ouvido falar até ler uma reportagem muito interessante sobre o fim do Mundo, já se está a preparar. Tal como Noé, também este escritor de 54 anos tem uma espécie de arca, actualizada está claro, que os tempos das arcas de madeira já lá vão. Está a juntar amigos e provisões para ultrapassar o que diz ser o fim do Mundo - não percebi bem porque é que este senhor vai sobreviver, mas adiante. Fica então a questão: porque raio é que o Mundo vai acabar a 21 de Dezembro de 2012? Parece que tudo aponta nessa direcção, todos os desígnios cósmicos, todas as coincidências históricas e ainda todas as superstições tolas. À teoria de que a Terra vai ser destruída com o regresso do planeta Nibiru, em 2012, junta-se o facto de o calendário Maia, uma das grandes civilizações da antiguidade, terminar não mais que no dia 21 de Dezembro de 2012. E se estes senhores, especialistas que eram em astronomia, fecham as contas nessa data, então isso só pode significar que nada mais haverá para além dela. Faltavam aqui os adeptos de Nostradamus, conhecidos por se terem enganado com esta coisa do fim do mundinho e ainda uma série de especialistas que falam em tempestades solares, alinhamentos planetários, etc, etc, etc, tudo marcado para a mesma data: 21/12/12. E é aqui que entra agora o meu protesto: não concordo com a data. Não estou preparada para enfrentar o fim do Mundo para já. Tenho ainda muitas coisas marcadas na minha agenda, pelo que, senhores astrónomos, videntes e afins, revejam lá esses cálculos e mudem o dia do apocalipse.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pontapés no português

Não gosto de futebol. Podia fingir, dizer que sim, que é giro, interessante e gastar tantos outros adjectivos com o tema, mas não gosto e não consigo compreender o que leva 22 marmanjos - para além do dinheiro que, dirão muitos, é motivação suficiente - a correr tempos infinitos atrás de uma bola. No entanto, há algo de que gosto: de os ouvir falar. Se há coisa que nos consegue divertir, isso é ouvir um jogador, treinador e afim a tentar juntar palavras e formar uma frase com sentido. Aqui sim, são verdadeiros artistas, pelo menos na arte de pontapear a língua materna. Por isso, fartei-me de rir quando li as seguintes pérolas, enviadas à laia de provocação.

"A selecção não jogou nem bem, nem mal, antes pelo contrário" Gabriel Alves
"Existem muitos jogadores alemães a jogarem no campeonato germânico" idem
"O meu clube só tem uma cor: azul e branco" João Pinto, ex-jogador do FCP
"Clássico é clássico e vice-versa" Jardel
"Nestes jogos, sobe-me a naftalina" idem
"Jogar à defesa pode ser uma faca de dois legumes" Jaime Pacheco
"O processo de neutralização do jogador pertence ao forno interno do clube" Jorge Jesus

domingo, 1 de novembro de 2009

Fome

Nunca fui grande coisa para comer. Com a honrosa excepção dos doces, que comia como se não houvesse um amanhã, nunca apreciei verdadeiramente um bom prato e nem percebia a que é que as pessoas se referiam quando elogiavam uma refeição de peixe ou desfiavam um rol de adjectivos quando se referiam a um naco de carne. Sempre fui assim, desde pequenina. Por isso é que não consigo explicar o meu súbito interesse por comida. Parece que ando sempre com fome. Tenho fome quando me levanto, quando vejo comida na televisão, quando folheio uma revista e me deparo com uma mesa farta; tenho fome quando acabei de comer, quando na rua cheira a comida, quando me lembro da comida da minha mãe... Mas porque raio é que ando com tanta fome?