A falta de tempo impede um registo à altura das pérolas que lhe saem da boca. Algumas ficam registadas em guardanapos, antigas faturas, folhetos de publicidade ou qualquer outro pedaço de papel que esteja à mão. É pena. Porque as recordações são importantes. Porque há momentos que, por mais que queiramos, não voltam a repetir-se.
Recuperei estes dois, esquecidos numa mala.
"Tenho uma vida abebezada. É uma vida em que não fazemos coisas de jeito.
Queria ter aventuras, encontrar um ladrão, chamar a polícia e
e vê-los prendê-lo. Depois ia a correr para casa."
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No meio de uma sessão de leitura do 'Diário de um Banana' descobriu que o marcador que usava para não se perder nas páginas era um cartão com informação sobre todos os dias mundiais e nacionais das doenças.
- O que é a osteoporose? - perguntou sem perder tempo.
- É uma doença - respondi eu, sem lhe dar grande conversa.
- Porque é que não festejamos este dia?
- Não se festejam os dias das doenças. Assinalam-se, para que não nos esqueçamos que é importante lutar contra elas.
- Podemos celebrar esses dias cá em casa? Acho que devíamos fazer uma festa para cada doença. Fazíamos um jantar e convidávamos as pessoas.
- Não me parece - respondi eu, sem saber bem porque é que continuava a alimentar aquele delírio.
- O que é o cancro? - voltou ele à carga.
- É uma doença em que as células do nosso organismo se descontrolam.
- E mata?
- Sim, pode matar.
- A Diana diz que se atarmos um elástico à volta do dedo podemos ter cancro. Depois, tomamos um medicamentos e cai-nos o cabelo.
- Isso não acontece.
- Mesmo se apertarmos com muita força? - disse, ele muito desconfiado.
- Sim, mesmo se apertarmos com muita força.
- E quero ter 17 filhos. - Não sei bem como, nem porquê, passámos de uma conversa para outra sem intervalo.
- 17? Vais ter que arranjar uma casa muito grande!
- Vou viver num apartamento, no Porto.
- Mas vais ter que ter muitos quartos.
- Não, eles dormem em sacos cama, no chão. Espera lá, isto de ter filhos é só dizer que se quer ter e eles aparecem? Ou tem que se ir ao médico pedir um?
Aqui, decidi que era hora de ir dormir.
- Sim, sim, isso. Até amanhã.
- Estás-me a ignorar? - perguntou ele.
- Claro que não, mas já é tarde.
A conversa ficou por ali. No dia seguinte, voltou à carga, desta feita junto do pai, a quem fez a pergunta da praxe: como é que se tem um filho.
O pai respondeu com a também típica resposta da sementinha, mas com um twist final: o pai coloca uma semente na mãe e depois vem a cegonha e traz o bebé.
- Cegonha? Não me digas que também acreditas no Pai Natal!
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
terça-feira, 23 de setembro de 2014
"É obrigatório gostar de fado!"
- “Porque é que não vamos ao Festival Caixa Alfama?”
- “Fazer o quê”, respondo eu à pergunta do rapaz, acabado de fazer os 7 anos.
- “Ouvir a música”, responde-me ele com um tom paternalista, sem perceber porque é que tinha que explicar o que lhe parecia óbvio.
- “Mas sabes qual é o tipo de música que se ouve no Caixa Alfama?”, digo eu, que não sou grande fã de fado.
- “Sei... é fado.”
- “E tu gostas de fado?” – voltei eu, decidida a levar esta conversa até ao fim.
- “É obrigatório gostar de fado!”, diz ele, com um olhar reprovador na minha direcção.
- “Não achas que o fado é triste?”
- “Não.” – e virou-me costas, como que cansado de falar com alguém que, claramente, não estava ao nível da conversa: eu!
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Gostava de ser mulher
"Gostava de ser mulher", diz ele pensativo.
"Mulher?", pergunto eu, sem conseguir esconder a surpresa. "Mas porquê?"
"Porque as mulheres vivem mais tempo do que os homens. Ou então também podia ser vampiro."
"Vampiro?", volto eu a questionar.
"É que esses vivem para sempre e eu gosto muito de viver."
"Mulher?", pergunto eu, sem conseguir esconder a surpresa. "Mas porquê?"
"Porque as mulheres vivem mais tempo do que os homens. Ou então também podia ser vampiro."
"Vampiro?", volto eu a questionar.
"É que esses vivem para sempre e eu gosto muito de viver."
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Preocupações infantis
«Gostava tanto de ser mais magro!», diz ele, indiferente ao facto de ter pouco mais de 20 quilos, de ser, como diz a avó, um "magricela" ou de ter, como o espelho não se cansa de mostrar, as costelas à flor da pele.
«Tu já és tão magro», digo eu, sem saber bem porque é que lhe estou a responder, quando as palavras dele não passam de devaneios, mais uns, a juntar a todos os outros com que nos brinda com frequência.
«Gostava de ter menos barriga...», volta ele. E já sem esperar resposta, pega na revista do Continente, que tem sido companhia durante as manhãs, justificada pelo facto de, como diz, estar decidido a aprender a cozinhar, e concentra-se num artigo que devora, quase sem pestanejar. Só depois é que eu percebo o motivo da preocupação. O rapaz estava a ler sobre... celulite.
«Tu já és tão magro», digo eu, sem saber bem porque é que lhe estou a responder, quando as palavras dele não passam de devaneios, mais uns, a juntar a todos os outros com que nos brinda com frequência.
«Gostava de ter menos barriga...», volta ele. E já sem esperar resposta, pega na revista do Continente, que tem sido companhia durante as manhãs, justificada pelo facto de, como diz, estar decidido a aprender a cozinhar, e concentra-se num artigo que devora, quase sem pestanejar. Só depois é que eu percebo o motivo da preocupação. O rapaz estava a ler sobre... celulite.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
The Office, uma série infantil?
- "Mãe, qual é a tua personagem principal do The Office?"
- "Não sei."
- "A minha é o Michael, o chefe."
- "Mas tu percebes alguma coisa do que estás a ver?"
- "Claro. Queres que te explique alguma coisa?"
E pronto, mais uma conversa verdadeiramente rica sobre o mais recente fascínio do rapaz, a série The Office. Mas isso é para a idade deles, perguntarão alguns, tal como eu também já me perguntei diversas vezes. Não, não é, mas eu já desisti de tentar perceber o que é para a idade dele.
- "Não sei."
- "A minha é o Michael, o chefe."
- "Mas tu percebes alguma coisa do que estás a ver?"
- "Claro. Queres que te explique alguma coisa?"
E pronto, mais uma conversa verdadeiramente rica sobre o mais recente fascínio do rapaz, a série The Office. Mas isso é para a idade deles, perguntarão alguns, tal como eu também já me perguntei diversas vezes. Não, não é, mas eu já desisti de tentar perceber o que é para a idade dele.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Porque é que as pessoas fumam
"Porque é que as pessoas fumam?"
A pergunta é recorrente sem que as minhas respostas o satisfaçam. Até porque a questão que ele coloca faz todo o sentido. Mas como lhe possa explicar algo que não tem explicação?
"Nos maços de tabaco diz que fumar mata, que rouba anos de vida, que causa problemas respiratórios... Porque é que as pessoas fumam?" A dissertação começou logo pela manhã. E dado o meu silêncio, decidiu ele avançar com as respostas. "Só há duas hipóteses: ou querem morrer ou então não sabem ler e por isso não entendem o que vem escrito nos maços."
Voltei a optar por ficar calada. É que, para mim, há uma terceira hipótese, mas essa prefiro que seja ele a descobrir: é porque são estúpidas.
A pergunta é recorrente sem que as minhas respostas o satisfaçam. Até porque a questão que ele coloca faz todo o sentido. Mas como lhe possa explicar algo que não tem explicação?
"Nos maços de tabaco diz que fumar mata, que rouba anos de vida, que causa problemas respiratórios... Porque é que as pessoas fumam?" A dissertação começou logo pela manhã. E dado o meu silêncio, decidiu ele avançar com as respostas. "Só há duas hipóteses: ou querem morrer ou então não sabem ler e por isso não entendem o que vem escrito nos maços."
Voltei a optar por ficar calada. É que, para mim, há uma terceira hipótese, mas essa prefiro que seja ele a descobrir: é porque são estúpidas.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
silêncio...
Conheço a dor de perder alguém. Mas sendo-me insuportável lidar com ela, torna-se para mim por vezes mais difícil lidar com a dos outros. Por isso, prefiro nada dizer. Até porque nada tenho mesmo para dizer. Em vez de palavras vazia, de frases feitas ou comentários repetidos, prefiro o silêncio. Mesmo correndo o risco de que este seja confundido com frieza.
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