domingo, 28 de dezembro de 2014

Salazar no dia de Natal

No dia de Natal, a caminho de casa e imbuída do espírito da época, alicerçado nas muitas músicas natalícias que saíam do rádio do carro, decidi começar a cantar. É certo que não sou conhecida pelos meus dotes vocais, mas do banco de trás vieram comentários pouco simpáticos à minha performance. Eu continuei e ele também.
- Qual é o teu problema? - perguntei-lhe eu.
- Pára, estás a dar-me dor de cabeça.
- Eu sou livre para fazer o que quiser e agora quero cantar. Por isso... - disse-lhe eu, pensando que os seus sete anos não lhe conseguiram alimentar uma resposta.
- Salazar, volta Salazar.
- Como? - perguntei eu.
- Sim, no tempo do Salazar não tinhas liberdade. Por isso não podias cantar.
Calei-me.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

E com esta é que me lixaste

- Quando é que vais escrever a carta ao Pai Natal? - perguntei-lhe eu.
- O Pai Natal não existe. Até a professora já disse isso. - respondeu ele, com a certeza que os seus 7 anos lhe conferem.
- Olha, eu acho que a tua professora está errada. O Pai Natal é mágico e isso significa que, se acreditares, ele existe. O que é que tu achas?
- Eu acho que ele não existe... mas não tenho a certeza absoluta.
- Então porque é que não escreves uma carta. Aposto que ele te vai responder.
- Está bem.
E lá foi ele, decidido a contactar com o Pai Natal, para minha grande alegria. Regressa, meia hora depois, com uma folha cheia de prosa.
- O que é isto? - pergunto eu, incrédula com o tamanho da lista, composta por várias dezenas de artigos que ele retirou dos muitos catálogos de supermercados que nos têm enchido a caixa do correio.
- É a minha lista. E agora é que eu vou saber mesmo se existe o Pai Natal!
- Como assim? - perguntei eu a medo.
- Se ele não me trouxer tudo o que eu pedi é porque não existe.
Aqui, percebi que ele já me tinha lixado. Ainda tentei remediar a situação, convencê-lo que o Pai Natal não é rico, que lhe doem as costas e não pode trazer muito peso. Mas ele foi irredutível. E foi assim o fim do Pai Natal lá em casa.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Não me digas que acreditas no Pai Natal

A falta de tempo impede um registo à altura das pérolas que lhe saem da boca. Algumas ficam registadas em guardanapos, antigas faturas, folhetos de publicidade ou qualquer outro pedaço de papel que esteja à mão. É pena. Porque as recordações são importantes. Porque há momentos que, por mais que queiramos, não voltam a repetir-se.
Recuperei estes dois, esquecidos numa mala.

"Tenho uma vida abebezada. É uma vida em que não fazemos coisas de jeito. Queria ter aventuras, encontrar um ladrão, chamar a polícia e e vê-los prendê-lo. Depois ia a correr para casa."
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No meio de uma sessão de leitura do 'Diário de um Banana' descobriu que o marcador que usava para não se perder nas páginas era um cartão com informação sobre todos os dias mundiais e nacionais das doenças.
- O que é a osteoporose? - perguntou sem perder tempo.
- É uma doença - respondi eu, sem lhe dar grande conversa.
- Porque é que não festejamos este dia?
- Não se festejam os dias das doenças. Assinalam-se, para que não nos esqueçamos que é importante lutar contra elas.
- Podemos celebrar esses dias cá em casa? Acho que devíamos fazer uma festa para cada doença. Fazíamos um jantar e convidávamos as pessoas.
- Não me parece - respondi eu, sem saber bem porque é que continuava a alimentar aquele delírio.
- O que é o cancro? - voltou ele à carga.
- É uma doença em que as células do nosso organismo se descontrolam.
- E mata?
- Sim, pode matar.
- A Diana diz que se atarmos um elástico à volta do dedo podemos ter cancro. Depois, tomamos um medicamentos e cai-nos o cabelo.
- Isso não acontece.
- Mesmo se apertarmos com muita força? - disse, ele muito desconfiado.
- Sim, mesmo se apertarmos com muita força.
- E quero ter 17 filhos. - Não sei bem como, nem porquê, passámos de uma conversa para outra sem intervalo.
- 17? Vais ter que arranjar uma casa muito grande!
- Vou viver num apartamento, no Porto.
- Mas vais ter que ter muitos quartos.
- Não, eles dormem em sacos cama, no chão. Espera lá, isto de ter filhos é só dizer que se quer ter e eles aparecem? Ou tem que se ir ao médico pedir um?
Aqui, decidi que era hora de ir dormir.
- Sim, sim, isso. Até amanhã.
- Estás-me a ignorar? - perguntou ele.
- Claro que não, mas já é tarde.
A conversa ficou por ali. No dia seguinte, voltou à carga, desta feita junto do pai, a quem fez a pergunta da praxe: como é que se tem um filho.
O pai respondeu com a também típica resposta da sementinha, mas com um twist final: o pai coloca uma semente na mãe e depois vem a cegonha e traz o bebé.
- Cegonha? Não me digas que também acreditas no Pai Natal!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

"É obrigatório gostar de fado!"




- “Porque é que não vamos ao Festival Caixa Alfama?”
- “Fazer o quê”, respondo eu à pergunta do rapaz, acabado de fazer os 7 anos.
- “Ouvir a música”, responde-me ele com um tom paternalista, sem perceber porque é que tinha que explicar o que lhe parecia óbvio.
- “Mas sabes qual é o tipo de música que se ouve no Caixa Alfama?”, digo eu, que não sou grande fã de fado.
- “Sei... é fado.”
- “E tu gostas de fado?” – voltei eu, decidida a levar esta conversa até ao fim.
- “É obrigatório gostar de fado!”, diz ele, com um olhar reprovador na minha direcção.
- “Não achas que o fado é triste?”
- “Não.” – e virou-me costas, como que cansado de falar com alguém que, claramente, não estava ao nível da conversa: eu!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Gostava de ser mulher

"Gostava de ser mulher", diz ele pensativo.
"Mulher?", pergunto eu, sem conseguir esconder a surpresa. "Mas porquê?"
"Porque as mulheres vivem mais tempo do que os homens. Ou então também podia ser vampiro."
"Vampiro?", volto eu a questionar.
"É que esses vivem para sempre e eu gosto muito de viver."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Preocupações infantis

«Gostava tanto de ser mais magro!», diz ele, indiferente ao facto de ter pouco mais de 20 quilos, de ser, como diz a avó, um "magricela" ou de ter, como o espelho não se cansa de mostrar, as costelas à flor da pele.
«Tu já és tão magro», digo eu, sem saber bem porque é que lhe estou a responder, quando as palavras dele não passam de devaneios, mais uns, a juntar a todos os outros com que nos brinda com frequência.
«Gostava de ter menos barriga...», volta ele. E já sem esperar resposta, pega na revista do Continente, que tem sido companhia durante as manhãs, justificada pelo facto de, como diz, estar decidido a aprender a cozinhar, e concentra-se num artigo que devora, quase sem pestanejar. Só depois é que eu percebo o motivo da preocupação. O rapaz estava a ler sobre... celulite.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

The Office, uma série infantil?

- "Mãe, qual é a tua personagem principal do The Office?"
- "Não sei."
- "A minha é o Michael, o chefe."
- "Mas tu percebes alguma coisa do que estás a ver?"
- "Claro. Queres que te explique alguma coisa?"

E pronto, mais uma conversa verdadeiramente rica sobre o mais recente fascínio do rapaz, a série The Office. Mas isso é para a idade deles, perguntarão alguns, tal como eu também já me perguntei diversas vezes. Não, não é, mas eu já desisti de tentar perceber o que é para a idade dele.